Chega uma hora em que você se cansa de contar carneiros. O silêncio penetra por seu corpo mas o sono não vem. A luz está apagada, mas você percebe que não enxerga menos por causa disso, na verdade, enxerga mais do que deveria. As horas passam, coisas se mexem, se transformam e o mundo gira. Sei que é difícil crer no que os olhos não podem ver, mas nada é como parece ser.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Chorar é preciso


Eu preciso do choro.

Sei que ele está aqui, guardado em algum lugar. Latente. Como um vulcão que passa décadas adormecido e de repente resolve acordar.

Preciso aprender a entrar em erupção. Sentir o corpo se aquecendo enquanto ele se desperta do fundo da alma e sobe em direção aos olhos. Sentir a energia, o vibrar, o alívio de “colocar para fora”.

Espero ansioso pelo dia em que o choro chegue e carregue, como em uma enchente, os desprazeres da vida de até então. Que despeje no olho da rua tudo aquilo que não é bem vindo.

Tudo isso só para poder respirar ofegante, livre e me sentir vivo. Pois as lágrimas nem sempre significam tristeza. As vezes elas são a única chance que temos de abrir as portas emperradas para tentar ser feliz outra vez.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Viver


Possuo apenas uma ânsia, esta bem simples e pequena: Viver. Fazer de coisas simples aventuras intensas. Poder olhar para trás e sentir que deixei minha marca e não apenas passei e fui embora. Não quero viver de resquícios putrefeitos de arrependimento e muito menos me sentir culpado por aquilo que não tenho nada a ver, pelo contrário, quero sempre encontrar motivos, por menores que sejam, que me convençam de que tudo valeu a pena. Quero derrubar as paredes que limitam minhas idéias. Me livrar das amarras que me impedem de voar. Quero extinguir meu medo de tentar. Quero pensar que, quem de mim não gosta, é simplesmente porque não sabe enxergar o que tenho de melhor e que não há nada de errado comigo, afinal. E quer saber? Não me importo mais. Saiba me ganhar e você terá um grande amigo, talvez o melhor. Me despreze e fique tranquilo, não sou tão mesquinho a ponto de fazer o mesmo com você, mas tenho fé suficiente para acreditar que a vida cuidará do resto. Não espere que eu te ignore se você precisar de mim. Não cumpro promessas de esquecer pessoas assim, tão facilmente. Por amar exageradamente talvez seja bobo, mas a solidão, minha melhor amiga, me ensinou a enxergar além, além de um rostinho bonito ou de um aparente sorriso bondoso. Ela não quer me deixar, tão amigos que somos, e não quer me entregar tão fácil nas mãos de qualquer um também. Como podem ver, a solidão é amiga apenas de quem merece.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Perder-se também é caminho


Sobrevivo de realidades inventadas. No sono vivo de sonhos, mundo em que estou e não estou. O ser que adormece agora não é nem a sombra do que acordou pela manhã. Passaram-se pessoas, fatos, gestos, toques, palavras... servindo hora como faca afiada, hora como a mais eficiente essência de crescimento. Vagueio por entre esses momentos, cada qual diferente do anterior. Nada é constante. Livrei-me da escória do passado onde fazer tudo certo era prioridade. Descobri que deixei de viver e que na verdade nunca vivi, pois tudo passa, como as nuvens a favor da brisa ou de ventos mais fortes.

Talvez o caminho não tivesse sido esse, caso não houvesse também, me perdido. Talvez a realidade fosse pior (ou melhor quem sabe?) que essa constante metamorfose de agora, que seria metamorfose de qualquer jeito? Quem sou eu para definir o certo e o errado? O melhor e o pior? Apenas vivo. Ou sobrevivo, dos entalhes de outros sobreviventes que já estão lá adiante, onde minha vista não pode alcançar. Colho as frases em que me encaixo, os pensamentos com os quais concordo e me surpreendo por termos tanto em comum. Quem disse que verdades são sempre palavras bonitas? Não! Belas ou monstruosas, verdades são sempre verdades.

Se tudo é passageiro, porque velhos pensamentos insistem em voltar à tona? Porque o sofrimento insiste em deixar sua marca quando passa? Já passou, não? Eu não sou o mesmo, então qual a razão de permanecer carregando comigo feridas de um ser que não sou? Ou que fui em um passado distante? Quero o novo, o belo, o inesperado. As surpresas, os gritos de "Oh", os risos, os aplausos, a gratidão sincera, uma marca construtiva. Nada que tenha sido previsto me agrada.

Mentir pode ser um caminho que nos salve, por hora. Não quero enganar ninguém dizendo que existem bússolas, ou espelhos, ou algo que nos sirva de guia para chegar onde queremos. Escolher pode ser uma ilusão, pois, ou os caminhos do mundo são predeterminados ou tudo é mesmo muito dinâmico, e caso a escolha esteja errada a culpa é toda sua. E, no fim de tudo, nossa vida, nossas palavras, nossas atitudes e tudo o que é ligado a nós está desencontrado, separado,
perdido. E talvez a única forma de nos encontrarmos seja nos perdendo primeiro, pois, afinal de contas, perder-se também é caminho.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Inverno sem Neve


Costumo sentir falta de coisas que não conheço, de coisas que nunca tive. Uma sensação de vazio que as coisas próximas não preenchem nunca. Algumas delas até que conseguem chegar bem próximo dos meus anseios, mas nunca substituem o desejo original. É uma coisa estranha, como se algo levasse a querer sempre estar além daquilo que nos cerca.

Sinto falta daquela presença branca, daquele brilho dos fins de tarde e daquilo que emperra as portas, pela manhã. Falta daquele movimento gelado e do ar condensado que sai dos pulmões em forma de fumaça quando ela está presente. Apesar de ser uma realidade distante, ela me aguça a pensar em dias felizes, dias em que meus amigos correm com seus casacos e sobretudo pelas ruas cinzentas, ásperas e molhadas, fazendo bolas de neve fofas e jogando uns nos outros enquanto na esquina, dois deles se empenham em criar um boneco de neve, quase pronto.

Quando a noite se aproxima e começa a escurecer, o vento castiga as janelas fechadas fazendo-as zumbir quando ele passa. Segundos depois ela cai, de início em pequenos flocos e um deles pousa na ponta do meu nariz, despertando desejos, sonhos, conquistas e muitas coisas que um dia serão apenas meras lembranças. A neve cai leve, despreocupada, muda de direção quando quer até atingir o chão, onde permanece.

Como se fizesse festa, ficando maior e caindo depressa, a neve nos faz um novo convite. Pede para que entremos em nossas casas aconchegantes, com pisos de madeira recém encerada, adentremos por nossas salas, onde a lenha crepitante alimenta o fogo na lareira e há uma poltrona só nossa nos esperando. Quase perfeito. Falta o chocolate quente que em um minuto fica pronto. A xícara fumegante espalha lufadas de vapor em nosso rosto e nos sentamos, olhando para a grande janela ao lado. Lá fora, branca e silenciosa, ela continua a cair, pedindo apenas que nunca nos esqueçamos dela, da neve tão antiga que mantém muitos segredos escondidos sob seu aspecto macio. Da neve que acompanha os humanos em tempos difíceis e que permanece viva para sempre, em suas memórias.

Para mim, só o que resta é imaginar como é tudo isso. A noção que tenho é baseada em fotos e descrições que li em livros. Em um clima tropical de altitude acho que é esperar demais que algo assim aconteça, mas, ela não está menos presente, menos real por causa disso. O inverno chegou, trazendo suas ondas frias e seus ares escuros, mas a neve, esta eu ainda não vi chegar.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Fragmentos do Tempo


A vida de cada pessoa gira em torno de sua essência. Algo que passa por transformações, mudanças e lapidações, mas que, no fundo permanece inalterado. Há o fragmento de tempo em que sorrimos, dizemos "bom dia" até para o vento, sentimos vontade de correr e abraçar o mundo com nossos minúsculos braços, abarcar todas as realidades possíveis e viver todas as formas de vida que existem. Essa é nossa natureza dinâmica, livre, solta, leve e envolvente. É a alma que quer se desprender do corpo, a sombra que quer andar com seus próprios pés, e o cérebro que quer se desatar do coração. É a busca inerente do ser humano pela descoberta, pelo conhecimento, pelo desconhecido e misterioso.
Há também os fragmentos do tempo em que queremos estar sós. Isolados de tudo e de todos. A tristeza bate nas portas do coração e ele, em sua bondade, a acolhe. O mundo escurece e nada parece bonito como fora um dia. As coisas simples perdem a cor e o brilho. O sol não esquenta o suficiente e trememos de frio. Algumas coisas nos acuam, nos prendem, amarram e dizem "Você só sai daí quando eu mandar!" Pronto, é o tempo outra vez.
Mas há algo além que nos renova sempre. Uma capacidade mágica de recriar a vida e o ser. Nos fazer levantar das cinzas e brilhar de novo. Sacudir a poeira e sorrir. Enxugar as lágrimas e começar da estaca zero. Os buracos se fecham e ficam as marcas, mas, com o tempo, as cores voltam, as flores se abrem e o sol aquece novamente. Nada está perdido, pois o tempo, apesar de parecer longo quando sofremos e curto quando estamos felizes, é apenas o suficiente para construir cada ser humano tal qual ele deve ser, em forma e essência.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Escrevi uma história sobre você


Imagine ter como defeito fatal o fato de se apegar muito facilmente às pessoas. Imagine também alguém que não sabe se valorizar antes dos demais. Imaginou? Bom, agora misture as duas coisas de forma que fique impossível descobrir onde começa uma e termina a outra. Pronto, agora você sabe como é o meu coração.
Ignorando estes fatos, algo em você me convenceu a dar uma nova chance a mim mesmo. Esse foi o erro, aliás, esse sempre é o erro. Não que eu esteja sendo pessimista com relação à sentimentos mas estes não fazem o mínimo esforço pra que eu pense o contrário a seu respeito. Não mesmo.
O coração tem dessas coisas, de se apaixonar sem antes conhecer. Pelo menos o meu tem. Agora não sei dizer se isso é bom ou ruim. O que importa é que já te sentia aqui dentro, onde agora coloco minha mão e sinto palpitar. Mas é um coração que palpita sozinho, descompassado, as vezes leva um choque quando pensa em você e dispara, mas logo logo se acalma.
Te conheci em um dos finais de semana da minha vida. São inúmeros, eu sei, mas nenhum tão especial como aquele.
Eu estava tomado por uma ansiedade avassaladora. Não parava de olhar para os lados e andar para lá e para cá à sua procura, à sua espera. Tinha a certeza de que, apesar de nunca te ter visto pessoalmente, meu coração sentiria quando você chegasse. Foi dito e feito.
Por um instante, eu parei. Olhei para trás e lá estava você, sorrindo. Aquele era o gesto que eu precisava para saber se estava realmente gostando de você. Com um pouco de timidez você chegou e me conquistou ainda mais, sempre com medo de olhar nos meus olhos, de falar comigo. Tudo aquilo foi lindo, perfeito.
Apesar de eu ser um tanto estranho, você não me deixou de lado. Não me abandonou como fazem os egoístas, pelo contrário, entendeu o meu jeito de ser, coisa que poucos entendem. Confesso que sentia ciúmes quando tinha que dividir sua atenção com os demais, mas você não me pertencia. Eu é quem tenho a mania de me entregar sem ganhar nada em troca.
Me senti deslocado no meio de tudo e de todos, mas até isso teve o seu lado positivo. Por alguns segundos você me deu abrigo em teus braços, senti teu calor e isso fez com que eu me sentisse a pessoa mais feliz do mundo por ter você ali comigo, mesmo que só por alguns instantes.
Como é de costume, minha felicidade durou pouco. Isso em parte é culpa minha, por não saber me adaptar ao teu jeito, não saber dançar conforme a sua música. Você não vê, mas enquanto você sorri e se diverte, eu choro por ter você tão perto mas, ao mesmo tempo tão longe de mim. Acabei adormecendo.
Ao abrir meus olhos e te ver tão perto, dormindo feito um anjo, tive vontade de te acordar e confessar tudo, palavra por palavra do que eu estava sentindo, mas não o fiz. Preferi ficar ali parado, olhando teu rosto, esperando que você acordasse e viesse confessar a mim algo que eu sei que nunca existiu dentro de você.
Eu estava sozinho com meus pensamentos quando você apareceu e sentou-se ao meu lado, me olhou com aquele sorriso que só você tem e começou a conversar comigo. Era fascinante ver seus detalhes assim, tão de perto, tentar entender cada traço, cada gesto, cada efeito que você causava em mim. Eu queria gravar a tua face em meus pensamentos para não esquecê-la mais. Nunca mais.
Você pediu uma de minhas mãos e eu lhe dei. Percebeu então que eu estava nervoso e eu tentei disfarçar, dizendo que aquilo era normal. Mas como pode ser normal alguém tremer dos pés à cabeça, como se uma corrente elétrica transpassasse por todo o corpo só pelo fato de alguém estar segurando a sua mão? Compreendi que não era o gesto em si que causava arrepios mas sim, a pessoa que o estava realizando.
Eu te abracei bem forte, como se não quisesse te perder nunca mais, e na verdade eu não queria mesmo. Te soltei devagar, ainda sentindo o teu calor e olhando teu corpo, tão próximo ao meu. Olhei bem no fundo dos teus olhos e você sorriu, foi aí que te beijei. Forte. Intensamente. Com sentimento. Deixei de lado os pensamentos de dúvida e me entreguei, de todo o coração.
Não é preciso dizer que por um momento me senti como se pertencesse à você, mas algo me dava um puxão e me mostrava o contrário, mas te juro que fingi não ver, que tentei me convencer de que estava enganado, mas seu coração já pertencia a outro e eu cheguei tarde demais.
Depois que me envolvi mais do que deveria, percebi meu erro. Eu estava apaixonado mas você não me queria da mesma forma. Me beijava sabendo que aquilo seria passageiro enquanto eu te beijava como se tudo fosse durar eternamente.
Te deixar foi realmente difícil. Ver você se distanciando fisicamente foi tão ruim quanto perceber que seu coração nunca esteve ligado ao meu da mesma forma. Não sei o que você carregou de mim contigo, mas juro que tentei te dar de presente o meu melhor. Tudo o que me resta agora é escrever histórias sobre você.

domingo, 17 de abril de 2011

O Avô Sorridente



Através da imensa janela de vidro no alto daquele edifício, eu contemplava, distraído, aquele rio largo, de águas pardas que corria até se perder de vista. Ao longe, uma ponte se projetava acima dele e por ela passavam vários carros e ônibus, vindos sabe-se lá de onde e indo pra onde só Deus sabe.
Me peguei vagando por pensamentos distantes, por lembranças desconhecidas e imaginadas, de um tempo no qual eu não vivi, de pessoas as quais não conheci, mas que estão diretamente ligadas a mim. O sol batia forte na janela e nas águas do Rio Itapemirim, tornando a vista turva e os pensamentos, pelo contrário, cada vez mais claros. Imaginei quantas vezes ele teria passado por ali? Quantas vezes o mesmo sol, quente e ofuscante, teria iluminado a lataria do ônibus amarelo que ele dirigiu por tantos anos? Quantas vezes ele teria cruzado aquela mesma ponte, parado e olhado em direção àquelas águas pardas? Por um breve instante, pensei ter visto seu rosto, conhecido apenas através das antigas fotografias guardadas por parentes e amigos, refletido naquelas águas correntes.
Fui despertado de meus devaneios por alguém que chegara próximo de mim de repente e começou a falar, como se advinhasse meus pensamentos, a respeito da mesma pessoa sobre a qual eu estivera pensando nos últimos minutos. Minha mãe também parou ao meu lado e ficou observando o rio por alguns instantes, até que falou:
"Eu me lembro de que, quando eu era pequena, certa vez eu cruzei aquela ponte dentro de um ônibus amarelo. Meu pai estava na cabine, lá na frente, conversando com o motorista que pelo jeito era conhecido dele. Aquela, acho eu, foi a primeira e única vez em que eu vi, sem imaginar, meu futuro sogro. Seu avô."
Eu continuei a observar a ponte sem dizer nada e ela se retirou. Meu avô morreu muito antes de meus pais sequer se conhecerem mas, acho que ele sempre esteve vivo dentro de mim, mesmo que eu não tenha nenhuma idéia de como ele tenha sido realmente. O que guardo de meu avô, são apenas relatos de pessoas que o conheceram, que conviveram com ele ou que simplesmente viajaram tendo-o como seu condutor naquelas viagens que, segundo as mesmas pessoas, ele fazia como nenhum outro motorista. Seu bom humor e suas piadas eram famosos entre os amigos. Me orgulho quando dizem que sou muito parecido com ele, que tenho as mesmas feições, as mesmas atitudes. Na verdade, nunca escutei ninguém falando mal a seu respeito. As vezes eu fico me imaginando correndo em sua direção para lhe dar alguma boa notícia enquanto ele abre seus braços e me abraça bem forte, desejando-me toda a sorte do mundo. Penso nele presente em meus aniversários, minha formatura, no natal e em todos os outros dias do ano. Apesar de nunca ter escutado a sua voz, ouço o som de seu riso ecoando distante nos lugares onde sei que ele esteve presente um dia. Ouço o som de seus passos enquanto ele anda pela sala com um papagaio no ombro.
Aquelas águas, vistas pela primeira vez depois de tantos anos após a sua morte ainda correm. Águas que a ele um dia pertenceram, que faziam e ainda fazem parte do seu lar. Olhando-as pela última vez antes de me virar e enxugar uma lágrima, tive a certeza de que, de alguma forma ele ainda está vivo e que apesar da inevitável passagem do tempo, o Rio Itampemirim guardará para sempre a memória de sua imagem refletida nele, a imagem de um avô sorridente.